terça-feira, abril 24, 2007

Nova Antena - Projectos "Ouro Negro"

Já tinha prometido apresentar uma entrevista de Outubro de 1970, em que o Duo, acabado de regressar do Japão, apresentava os seus projectos para o ano de 1971. Era incontornável na entrevista de Carlos Pina, não abordar o mítico LP "Blackground".

Blackground, o velho e o novo testamento da música africana segundo o Duo Ouro Negro.

Regressado do Japão há bem pouco tempo, onde, segundo os próprios colegas, foi o êxito mais notado na feira de Osaka, o "Ouro Negro prepara a sua ofensiva para a próxima temporada.

Perderam os violões, as malas, actuaram no Japão com instrumentos alugados, fatos emprestados ou alguns "salvados" como, a brincar, nos dizia o Raúl. Apesar de tudo, o "Ouro Negro" foi sucesso grande no Japão, e a música africana, de que maneira!...

. Agora há milhentas coisas para fazer.

Era necessário fazer qualquer pergunta:

- Sim, há muito trabalho a concluir em breve. Há, falando, primeiro genericamente, a gravação de um LP intitulado "Blackground", para mim a coisa mais séria que fizemos até agora, e outros EP como o da "Rainha Dona Amélia" e "Neusa".

. Mas o que realmente faz correr agora o "Ouro Negro" é o próximo lançamento de um LP que tudo indica venha a marcar uma fase nova para a renovada, arejada e sempre actual música africana.

- Nós estamos actualmente, e cada vez isto se notará mais, a fazer coisas com pés e cabeça, coisas muito sérias. Este Blackground", por exemplo, é a história da música africana, desde que saiu de África até que voltou, numa dimensão maior, com uma estrutura e modos diferentes.

. Mas essa música que saiu já voltou realmente a África!?...

- Sim, tem voltado em jazz, em espiritual, em pop inclusivamente. É disso que este disco vai tratar. "Blackground" é o "campo negro", na música, e vai ser um clássico africano, vai ser uma coisa como ainda não há sobre a música de África.

. E logo a seguir:

- Há a história da música africana, naturalmente, mas em género de biografia. Este LP vai ser uma retrospectiva, cantado em português e inglês.

.Mais um pormenor:

- "Blackground" inclui várias partes que se interpenetram, formando um todo. Tem, por exemplo, a história da escravatura; a criação de África; o nascimento de Iemanjá; como é que o homem começou a cantar; donde vinha o som; como foi o som, por exemplo, o rio que atravessou África e o mar e foi ter ao outro lado e ali, abrindo os braços, como nasceram outros rios, o Mississipi, o Missouri, o Amazonas, eu sei lá. Depois o homem africano que ia pelo rio e que cantava no leito e ouvia a resposta vinda já do outro lado "Don't take me by the river", mas já em blues.

Portanto é a história da música de África desde que saiu de lá até que voltou, agora em jazz, samba, afro, etc.

. Naturalmente, o meter ombros a tão arrojada empresa implica uma documentação, um estar dentro das realidades, um arcabouço particular.

- Naturalmente, mas o nosso maior trunfo é o grande conhecimento que temos de África e da sua música, primeiro porque somos africanos; segundo, porque temos uma responsabilidade muito grande; e terceiro, porque queremos deixar qualquer coisa de válido, pelo menos em música, à nossa terra, deixando para secundaríssimo plano essas coisas como "Marias Ritas", "Silvies", etc.

. Decididamente, portanto, virados para África?!...

- Sim. Aliás sempre estivemos. Simplesmente, de vez em quando, fazemos umas coisinhas assim para cá.

. Raúl acrescenta mais um pormenor da importência que diferencia a "nossa" música "Ouro Negro" da brasileira:

- Um dos caudais do "Blackground" é precisamente o rio brasileiro; outro é o ramo europeu, mas só no que diz respeito ao ritmo, a "pop-music"; outro, ainda, um dos mais importantes, aliás, é o ramo americano, a música dita branca: a junção, por exemplo, do "espiritual-folk", "soul-music", etc. Como sabe, há muito que se processa um retrocesso da música americana para África, chamado o "afro"...

. Muito mais se falou...

Nova Antena, 2 de Outubro de 1970

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sexta-feira, abril 20, 2007

Blackground em Vilar de Mouros

Antecipando a publicação da entrevista sobre o projecto Blackground, achei importante colocar novamente o post sobre o mesmo álbum, mas com algumas alterações importantes.

Antes mesmo da grande jornada empreendida pelo Duo Ouro Negro nos Estados Unidos da América, nasceu a vontade de criar um projecto dedicado às raízes da Música Africana. Assim em 1971 nasceu o projecto mais ambicioso de sempre, o Blackground!

Esse álbum incluía temas africanos com várias influências musicais, fruto da aculturação que o próprio Homem Negro fez nos países para onde foi levado.

O disco contou com a participação dos bem conhecidos “Objectivo”, Kevin Hoidale (teclados) e do Zé Nabo (Baixo); Adrian Rainsy (Bateria), e James Thomas (Viola Eléctrica). Adrian Rainsy juntamente com Kevin Hoidale e João Ramos Jorge (Rão Kyao) foram "colegas nos "The Brigde". (revisto)

Estávamos a viver os tempos áureos da música Rock em Portugal, e o Duo Ouro Negro aderia ao movimento psicadélico, com sons nunca antes tocados. Nesse mesmo ano, acabavam por estrear em Vilar de Mouros, ao lado de artistas como Elton Jonh, Amália Rodrigues, Quarteto 1111, entre tantos outros, o espectáculo com o mesmo nome “Blackground”.

Mas Portugal não estava preparado para tal, viviam-se tempos de censura, e não foi visto com bons olhos que as grandes vedetas do cançonetismo dessem um exemplo de conciencialização para o orgulho do Homem Negro. A partir daqui o Duo passou a ser alvo de forte censura nos seus espectáculos, rumou mais para a América e Ásia, voltando, dez anos depois a editar um novo Blackground, acompanhado de conjunto de artistas invejável. Ficou para a posterioridade aquilo que se julgava impensável, esta foto de Vilar de Mouros, de Lobo Pimentel Jr.

Blackground.mp3

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quarta-feira, novembro 15, 2006

Duo Ouro Negro - Mulowa Afrika

Mulowa Afrika foi o 2º álbum editado em LP pelo Duo Ouro Negro, pela primeira vez repleto de folclore de Angola e ainda uma canção tradicional de Goa "Canção da Despedida". Este disco teve o acompanhamento da popular banda Thilo's Combo (de Thilo Krasmann) e do coro feminino da Emissora Nacional. Segundo os artistas "consideram este disco como o melhor da sua carreira, tanto nas canções folk, como nos arranjos das outras canções religiosas...", de onde se destaca Kyrie e Kuemba Ritôko.
Entre cânticos de uma caçada e danças guerreiras Txizenguê e Mulowa (mulher bonita), o som da katxakata e do kissange embalam o ritmo contagiante da música Afrika (Kaiábula) que terão oportunidade de ouvir neste post. Este disco data do ano de 1967, viria a ser reeditado em 1974 e 1982, e ainda editado em França, Alemanha, Brasil, Argentina e nos Estados Unidos com o título The Music Of Africa today. Imperdível! Powered by Castpost

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sábado, setembro 30, 2006

Blackground 1971

Djimba
Antes mesmo da grande jornada empreendida pelo Duo Ouro Negro nos Estados Unidos da América, nasceu a vontade de criar um projecto dedicado às raízes do Homem Africano. Assim em 1971 nasceu o projecto mais ambicioso de sempre, o Blackground! Esse albúm incluía temas africanos com várias influências musicais, fruto da aculturação que o próprio Homem Negro fez nos países para onde foi levado. Nesse mesmo ano, estreavam em Vilar de Mouros, ao lado de artistas como Elton Jonh, Amália Rodrigues, Quarteto 1111, entre outros, o espectáculo com o mesmo nome do disco. Mas Portugal não estava preparado para tal, viviam-se tempos de censura, e não foi visto com bons olhos que as grandes vedetas do cançonetismo dessem um exemplo de conciencialização para o orgulho do Homem Negro. A partir daqui o Duo passou a ser alvo de forte censura nos seus espectáculos, mas felizmente ficou para a posterioridade aquilo que se julgava impensável, esta foto de Lobo Pimentel Jr.
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quarta-feira, setembro 13, 2006

Trio Ouro Negro


Para muitos de vós o nome Trio Ouro Negro não é completamente desconhecida. Seria provável que para primeiros posts eu escrevesse sobre o Duo e não o Trio, mas julgo que é pertinente deixar algumas considerações. Como sabemos, Raúl e Milo vieram para Portugal em 1959, depois de terem assinado um contrato com um empresário português (Ribeiro Belga) que viu a sua brilhante actuação em Luanda. No entanto pouco se sabe acerca da formação original do grupo. Há quem defenda que foi um quinteto, um trio, mas o que sempre foi verdade é que, estes dois músicos foram os fundadores indiscutíveis do Ouro Negro. Amigos de infância, Raúl e Milo reencontram-se no Norte de Angola numa estação de caminho de ferro algures entre Malange e Carmona (actual Uíge), e assim numa festa, casualmente pegaram nos seus violões e tocando umas músicas, deixaram o público espantado com a sua habilidade. É provável que se tenham entretanto junto outros membros, ou "acompanhantes", mas a formação inicial é a do Duo. José Alves Monteiro, mais conhecido por Gin, foi então um dos que terá integrado o conjunto em 1961, quando Milo e Raúl foram a Angola actuar, após o mega sucesso em Portugal. Estes gravaram 5 Extended Play (EP), com 4 músicas cada um. Entre elas a célebre Mãe Preta de Piratini e Caco Velho do Brasil, Garota, e sobretudo muito folclore de Angola, tal como Ana Ngola Dilenué, Rebita, Cidrálea, Palamiê... Algumas destas são composições ou arranjos dos Ngola Ritmos do grande (Liceu) Vieira Dias. Entretanto o 3º elemento deixou o Trio... A versão que ouvi toda a minha infância, contada pelo meu falecido "Tio" Jorge (que vivia em Portugal naquela época, e que os viu actuar várias vezes), foi de que esse mesmo elemento teria sido ludibriado pelo Duo conduzindo à saída do mesmo. Apesar disso, também ouvi dizer por fonte próxima que este elemento teria sido "levado" pela PIDE, por alegadas ligações aos movimentos de libertação de então. Se foi, o que é certo é que em tantos anos, nunca ouvi o Raúl falar sobre José Alves Monteiro, nem sei se este ainda será vivo, mas a técnica imortalizou a voz destes 3 magníficos, como se pode ouvir nesta fabulosa versão de Palamiê de 1961 com arranjos de Emílio Vitória Pereira, para todos conhecido por Milo, (ou arranjos do próprio Vieira Dias).
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