Regresso - Amanhã
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Um Blog dedicado ao magnífico Duo Ouro Negro, representantes da raça crioula por todo o Mundo.
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A mês e meio da Revolução dos Cravos, directamente do Teatro Maria Matos, é transmitido para o vasto auditório da RTP, o XI Grande Prémio TV da Canção 1974.
Com apresentação de Artur Agostinho e Glória de Matos, o Duo Ouro Negro concorre com a Canção “Bailia dos Trovadores”, da autoria de Rita Olivais.
Raul e Milo concorrem pela última vez a Festivais da Canção nesse ano, com um tema bastante diferente do percurso que a sua carreira levava. Estávamos na era “Blackground”, em que o Duo cantavam toda a diáspora, e sentimento do povo de África, sendo esta participação, a meu entender, um pretexto para “regressarem” a Portugal depois de longa estadia pelo Oriente e América.
A canção Bailia dos Trovadores classifica-se num honroso em 4º lugar, com 28 pontos, em 3º lugar os Green Windows com “Imagens”, 2º lugar também Green Windows com “No Dia em Que o Rei Fez Anos”, e em 1º lugar aquela que seria uma das senhas para a Revolução, “E Depois do Adeus” com Paulo de Carvalho.
Ficam aqui as imagens da participação do Duo Ouro Negro, inovadores, e bastante originais. Obrigado por partilharem estes vídeos.
Em 1970 Raul Aires Peres e Milo Vitória Pereira tinham em mãos alguns ambiciosos projectos. Gravação do disco Blackground, um filme para a TV Francesa sobre Angola (em que eles seriam os principais intervenientes), participação nos festivais “Ibérico” e de música popular de Tóquio, e ainda a gravação de dois EP’s. Um deles seria o “Rainha Dona Amélia”.
Na verdade o disco viria a ser chamado de “Romança da Rainha”, esta música segundo Raul “é uma canção muito séria com um poema meu que musiquei”. Esse poema não seria mais do que a biografia da Rainha Dona Amélia, em que o Duo Ouro Negro canta em forma de homenagem à última Rainha que Portugal conheceu. Não foi um projecto isolado na carreira dos artistas, pois homenagearam também Salvador Allende em 1975, bem como Alda Lara e Viriato Cruz.
Este tema é pouco conhecido do público em geral, nem sempre Portugal vibrou com histórias de Princesas de terras distantes que se tornariam Rainhas, mas penso que esta seja uma justa homenagem a uma figura que influenciou os destinos deste país.
Já tinha prometido apresentar uma entrevista de Outubro de 1970, em que o Duo, acabado de regressar do Japão, apresentava os seus projectos para o ano de 1971. Era incontornável na entrevista de Carlos Pina, não abordar o mítico LP "Blackground".
Regressado do Japão há bem pouco tempo, onde, segundo os próprios colegas, foi o êxito mais notado na feira de Osaka, o "Ouro Negro prepara a sua ofensiva para a próxima temporada.
Perderam os violões, as malas, actuaram no Japão com instrumentos alugados, fatos emprestados ou alguns "salvados" como, a brincar, nos dizia o Raúl.
Apesar de tudo, o "Ouro Negro" foi sucesso grande no Japão, e a música africana, de que maneira!...
. Agora há milhentas coisas para fazer.
Era necessário fazer qualquer pergunta:
- Sim, há muito trabalho a concluir em breve. Há, falando, primeiro genericamente, a gravação de um LP intitulado "Blackground", para mim a coisa mais séria que fizemos até agora, e outros EP como o da "Rainha Dona Amélia" e "Neusa".
. Mas o que realmente faz correr agora o "Ouro Negro" é o próximo lançamento de um LP que tudo indica venha a marcar uma fase nova para a renovada, arejada e sempre actual música africana.
- Nós estamos actualmente, e cada vez isto se notará mais, a fazer coisas com pés e cabeça, coisas muito sérias. Este Blackground", por exemplo, é a história da música africana, desde que saiu de África até que voltou, numa dimensão maior, com uma estrutura e modos diferentes.
. Mas essa música que saiu já voltou realmente a África!?...
- Sim, tem voltado em jazz, em espiritual, em pop inclusivamente. É disso que este disco vai tratar. "Blackground" é o "campo negro", na música, e vai ser um clássico africano, vai ser uma coisa como ainda não há sobre a música de África.
. E logo a seguir:
- Há a história da música africana, naturalmente, mas em género de biografia. Este LP vai ser uma retrospectiva, cantado em português e inglês.
.Mais um pormenor:
- "Blackground" inclui várias partes que se interpenetram, formando um todo. Tem, por exemplo, a história da escravatura; a criação de África; o nascimento de Iemanjá; como é que o homem começou a cantar; donde vinha o som; como foi o som, por exemplo, o rio que atravessou África e o mar e foi ter ao outro lado e ali, abrindo os braços, como nasceram outros rios, o Mississipi, o Missouri, o Amazonas, eu sei lá. Depois o homem africano que ia pelo rio e que cantava no leito e ouvia a resposta vinda já do outro lado "Don't take me by the river", mas já em blues.
Portanto é a história da música de África desde que saiu de lá até que voltou, agora em jazz, samba, afro, etc.
. Naturalmente, o meter ombros a tão arrojada empresa implica uma documentação, um estar dentro das realidades, um arcabouço particular.
- Naturalmente, mas o nosso maior trunfo é o grande conhecimento que temos de África e da sua música, primeiro porque somos africanos; segundo, porque temos uma responsabilidade muito grande; e terceiro, porque queremos deixar qualquer coisa de válido, pelo menos em música, à nossa terra, deixando para secundaríssimo plano essas coisas como "Marias Ritas", "Silvies", etc.
. Decididamente, portanto, virados para África?!...
- Sim. Aliás sempre estivemos. Simplesmente, de vez em quando, fazemos umas coisinhas assim para cá.
. Raúl acrescenta mais um pormenor da importência que diferencia a "nossa" música "Ouro Negro" da brasileira:
- Um dos caudais do "Blackground" é precisamente o rio brasileiro; outro é o ramo europeu, mas só no que diz respeito ao ritmo, a "pop-music"; outro, ainda, um dos mais importantes, aliás, é o ramo americano, a música dita branca: a junção, por exemplo, do "espiritual-folk", "soul-music", etc.
Como sabe, há muito que se processa um retrocesso da música americana para África, chamado o "afro"...
. Muito mais se falou...
Nova Antena, 2 de Outubro de 1970
Antecipando a publicação da entrevista sobre o projecto Blackground, achei importante colocar novamente o post sobre o mesmo álbum, mas com algumas alterações importantes.
Antes mesmo da grande jornada empreendida pelo Duo Ouro Negro nos Estados Unidos da América, nasceu a vontade de criar um projecto dedicado às raízes da Música Africana. Assim em 1971 nasceu o projecto mais ambicioso de sempre, o Blackground!
Esse álbum incluía temas africanos com várias influências musicais, fruto da aculturação que o próprio Homem Negro fez nos países para onde foi levado.
O disco contou com a participação dos bem conhecidos “Objectivo”, Kevin Hoidale (teclados) e do Zé Nabo (Baixo); Adrian Rainsy (Bateria), e James Thomas (Viola Eléctrica). Adrian Rainsy juntamente com Kevin Hoidale e João Ramos Jorge (Rão Kyao) foram "colegas nos "The Brigde". (revisto)
Estávamos a viver os tempos áureos da música Rock em Portugal, e o Duo Ouro Negro aderia ao movimento psicadélico, com sons nunca antes tocados.
Nesse mesmo ano, acabavam por estrear em Vilar de Mouros, ao lado de artistas como Elton Jonh, Amália Rodrigues, Quarteto 1111, entre tantos outros, o espectáculo com o mesmo nome “Blackground”.
Mas Portugal não estava preparado para tal, viviam-se tempos de censura, e não foi visto com bons olhos que as grandes vedetas do cançonetismo dessem um exemplo de conciencialização para o orgulho do Homem Negro. A partir daqui o Duo passou a ser alvo de forte censura nos seus espectáculos, rumou mais para a América e Ásia, voltando, dez anos depois a editar um novo Blackground, acompanhado de conjunto de artistas invejável. Ficou para a posterioridade aquilo que se julgava impensável, esta foto de Vilar de Mouros, de Lobo Pimentel Jr.
| Blackground.mp3 |
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A segunda metade da década de 70 foi atribulada para o Duo Ouro Negro. Em 1976 fazem a última gravação da década para a EMI com um disco ao vivo, fazendo nos anos seguintes uma verdadeira travessia do deserto por terras portuguesas. Tal como outros músicos de então, foram afastados do panorama musical com conotações fascistas e cançonetistas.
Em 1977 gravam pela primeira vez para Arnaldo Trindade, mas infelizmente não obtiveram grande sucesso, e o Raúl ainda gravou a solo um single em 78.
Depois destes 3 anos em lume brando, finalmente voltam a gravar um LP desta vez para a Orfeu de Arnaldo Trindade, por sinal o LP que mais vendeu. O álbum teve a participação do mítico Mike Sergeant na guitarra, do já conhecido Zé Nabo, e do D'Jila Júnior.
Lindeza!, foi o nome escolhido pelos cantores para homenagear a Terra-Mãe (Minha Terra é grande mas será maior se eu a fizer crescer). Viviam-se tempos difíceis em Angola, e o Mega-Sucesso Vou Levar-te Comigo tentava levar uma mensagem de esperança a todos aqueles que se privavam da paz.
Extraí deste disco a música Despertar, porque constitui uma prova de que o grupo procurou sempre novos sons, novas fusões, como a da guitarra e o Kissange. Como dizia o Raúl, "O Ouro Negro é um marco histórico, e representa a simbiose entre a Europa e África".
Uma Lindeza!
| Despertar.mp3 |
Na minha opinião neste Epopeia é atingido por completo o verdadeiro sentido de Blackground, com 3 maravilhosas músicas non-stop Muinda Kwateni e Chegou o Homem Branco que podem ouvir de seguida.
Este disco foi também o último de originais para a Valetim de Carvalho na década de 70, passando a gravar nos anos seguintes para Arnaldo Trindade da Orfeu.
| Muinda Kwateni Chegou o Homem Branco |
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